JA-Online

http://www.ja-online.net.br

Poesia : Atire a primeira flor

Quando tudo parecer caminhar errado,

seja você a tentar o primeiro

passo certo;

Se tudo parecer escuro,

se nada puder ser visto,

acenda você a primeira luz,

traga para a treva,

você primeiro, a pequena lâmpada;



Quando todos estiverem chorando,

tente você o primeiro sorriso;

talvez não na forma de lábios sorridentes,

mas na de um coração que compreenda,

de braços que confortem;



Se a vida inteira for um imenso não,

não pare você na busca do

primeiro sim, ao qual tudo de positivo

deverá seguir-se;



Quando ninguém souber coisa alguma,

e você souber um pouquinho,

seja o primeiro a ensinar,

começando por aprender você mesmo,

corrigindo-se a si mesmo;



Quando alguém estiver angustiado a procura,

consulte bem o que se passa,

talvez seja em busca de você

mesmo que este seu irmão esteja;

Daí, portanto, o seu deve ser

o primeiro a aparecer, o primeiro a mostrar-se,

primeiro que pode ser o único e,

mais sério ainda, talvez o último;



Quando a terra estiver seca,

que sua mão seja a primeira a regá-la;

quando a flor se sufocar

na urze e no espinho,

que sua mão seja a primeira a separar o joio,

a arrancar a praga,

a afagar a pétala, a acariciar a flor;



Se a porta estiver fechada,

de você venha a primeira chave;

Se o vento sopra frio,

que o calor de sua lareira

seja a primeira

proteção e primeiro abrigo.



Se o pão for apenas massa

e não estiver cozido,

seja você o primeiro forno

para transformá-lo em alimento.



Não atire a primeira pedra em quem erra.

De acusadores o mundo está cheio;

nem, por outro lado,

aplauda o erro; dentro em pouco,

a ovação será ensurdecedora;



Ofereça sua mão primeiro

para levantar quem caiu;

sua atenção primeiro

para aquele que foi esquecido;

Seja você o primeiro

para aquele que não

tem ninguém;



Quando tudo for espinho,

atire a primeira flor;

seja o primeiro a mostrar

que há caminho de volta,

compreendendo

que o perdão regenera,

que a compreensão edifica,

que o auxílio possibilita,

que o entendimento reconstrói.



Atire você,

quando tudo for pedra,

a primeira e decisiva flor.



Autora: Glácia Daibert


Colaborador: Glácia Daibert